A
decisão dos eleitores britânicos, que ontem votaram
maioritariamente sim ao “brexit” (saída do país da União
Europeia (UE), é um acontecimento com impactos potenciais muito
significativos em todo a economia mundial.
O
Reino Unido será certamente o país que mais tem em jogo, mas os
outros membros da UE, numa primeira linha, e todos os restantes
parceiros comerciais da Grã-Bretanha serão também afectados.
Em
termos práticos, a saída efectiva do Reino Unido da União Europeia
ainda vai demorar algum tempo a concretizar-se, não se pode pensar
que os efeitos da decisão agora tomada apenas serão sentidos a
prazo. Nos mercados financeiros, as expectativas em relação a
potenciais impactos futuros, começam logo a produzir, como já foi
possível verificar na manhã desta sexta-feira.
Como
a maior parte das análises (feitas por bancos centrais, organizações
internacionais e bancos) é a de que o “Brexit” terá efeitos
negativos muito consideráveis tanto na economia britânica como na
economia mundial, foi sem surpresa que se assistiu, na abertura esta
sexta-feira dos mercados financeiros internacionais, a um dia de
grande nervosismo e perdas muito fortes.
Nas
bolsas, a queda do valor das acções foi bastante acentuada logo nos
primeiros minutos da sessão e manteve-se até ao fim do dia, depois
de perder mais de 7% logo no arranque, a bolsa de Londres recuperou
de forma progressiva, acabando ainda assim o dia com uma descida do
seu principal índice de 3,15%.
Nas
restantes bolsas europeias as quedas foram maiores, o que mostra a
preocupação que os mercados têm em relação ao impacto potencial
para a economia europeia como um todo, o mercado alemão registou uma
descida de 6,82%, em Paris a queda foi de 8,04% e em Madrid e Milão
o impacto negativo era ainda mais forte, com desvalorizações acima
dos 12%. Na bolsa de Lisboa, a perda foi de 6,99%.
Noutros
continentes, o ambiente também não foi positivo, tendo a bolsa de
Tóquio fechado com uma descida de 7,92%, ao passo que Nova Iorque
abriu o dia com uma perda próxima de 2,2%.
O
que está a acontecer nas bolsas, acontece também nos mercados
cambiais, e, a libra esterlina é a principal vítima.
Nos
mercados está-se a antecipar não só uma perda da importância da
economia britânica, como uma redução da utilização da libra nas
trocas comerciais e nos fluxos financeiros à escala global, por
isso, até as 17h00 desta sexta-feira, a libra perdeu 8,44% do seu
valor face ao dólar e 6,37% face ao euro. Esta depreciação da
divisa britânica irá ter efeitos muito importantes (e imediatos) no
comércio internacional e no turismo, por exemplo.
Apesar
de ter ganho terreno face à libra, o euro poderá também não sair
ileso do “Brexit”. Os mercados podem ver a saída da União
Europeia como um claro sinal de fraqueza do projecto europeu e, mesmo
sabendo que o Reino Unido nunca adoptou o euro, podem ficar ainda
mais desconfiados relativamente à capacidade para manter intacta a
moeda única europeia.
Para
já, o que está a acontecer é uma descida de 2,14% da cotação do
euro face ao dólar e de 6% face ao iene.
A
seguir à reacção dos mercados, que tenderão a caminhar em
direcção a um novo ponto de equilíbrio, o outro efeito de curto e
médio prazo será o provável adiamento de investimentos devido ao
clima de incerteza que se viverá até que o “Brexit” se
concretize na prática.
São
muitas as dúvidas que persistem, como saber o que é que acontece às
muitas directivas europeias em vigor no Reino Unido, quais os acordos
comerciais que irão passar a estar em vigor, qual o efeito da saída
na City londrina, e qual o efeito real na economia de todo este
processo.
Neste
ambiente de dúvida, é evidente que o investimento (seja dentro do
Reino Unido, seja de empresas britânicas no resto da União
Europeia) se ressentirá, podendo acabar por influenciar o efeito
final do “Brexit” na economia mundial.
Os
primeiros impactos do “Brexit” no comércio serão rápidos, já
que estão relacionados com as variações no valor das divisas que
já estão a acontecer.
As
exportações britânicas vão tornar-se mais atractivas no
estrangeiro e as vendas que outros países queiram fazer ao Reino
Unido vão passar a contar com uma concorrência mais forte dos
produtos produzidos internamente.
Depois,
a prazo as consequências no comércio da saída britânica da UE
dependerão do tipo de acordos que venham a ser adoptados, ao perder
o acesso ilimitado ao espaço único europeu, o Reino Unido terá
agora de negociar com a UE novas regras para a entrada e saída de
bens e serviços.
Os
modelos actualmente em vigor nas transacções da UE como países
como o Canadá, a Noruega e a Suíça podem servir de inspiração,
mas uma coisa é certa, quanto mais acesso ao mercado europeu o Reino
Unido quiser ter, mais regulações da UE e mais contributos para o
orçamento europeu terá de vir a aceitar. Para além disso, o Reino
Unido terá igualmente de negociar novos acordos bilaterais com
outros países fora da UE, um processo diplomático que se prevê
difícil e demorado.
A
expectativa, por isso, é que o resultado final do “Brexit” seja
o de uma redução das transacções comerciais do Reino Unido com o
resto do Mundo, especialmente a UE.
Há,
neste momento, cerca de três milhões de pessoas vindas de outro
Estado membros da UE, a viver no Reino Unido e 1,3 milhão de
cidadãos britânicos a viver noutros países da UE.
Ninguém
espera que seja exigido a todos estes migrantes que regressem
imediatamente ao local de origem (os apoiantes do “Brexit”
fizeram questão de garantir que os direitos dos imigrantes actuais
seriam mantidos), mas vários especialistas assinalam que haverá
certamente mais restrições à circulação de pessoas e à sua
permanência assim que o Reino Unido deixar de fazer parte da UE.
Em
termos económicos, esta mudança tem, para além dos efeitos
negativos evidentes para os próprios migrantes, várias
consequências: o Reino Unido perderá o impacto positivo no
crescimento da entrada de mão de obra, em muitos casos qualificada.
Depois
há ainda o movimento de pessoas por via do turismo, devido à
desvalorização da libra, é possível que menos turistas britânicos
se desloquem para o estrangeiro.
Fazendo
as contas àquilo que envia e aquilo que depois acaba por receber de
volta, o Reino Unido é o quarto maior contribuidor líquido para o
orçamento da UE, a seguir à Alemanha, França e Itália. São cerca
de nove mil milhões de euros que podem deixar os cofres de uma União
Europeia que já agora se vê a braços com dificuldades para fazer
face eventos extraordinários como o afluxo de refugiados.
Ainda
assim, é preciso ter em conta que os cálculos finais para o
orçamento da UE vão depender do tipo de entendimento que vier a ser
estabelecido entre as duas partes no futuro. Para poder ter um acesso
mais favorável ao mercado europeu, o Reino Unido pode vir a ser
forçado a continuar a dar um contributo para o orçamento da UE, tal
como acontece actualmente com outros países como a Noruega e a
Suíça.






Sem comentários:
Enviar um comentário