Na
noite de 18 para 19 de abril
de 2015, um pesqueiro que
abandonara a Líbia pouco antes naufragou entre as costas do país do
Norte de África e a ilha italiana de Lampedusa.
Segundo
se percebeu na altura, o naufrágio deu-se quando um
porta-contentores de bandeira portuguesa se aproximou por solicitação
das autoridades italianas, que acabavam de receber um pedido de
socorro.
Só
sobreviveram 28 pessoas e estas estimavam que seguissem 700 a bordo,
agora, mais
de um ano depois, confirma-se que não estavam longe da realidade.
No
dia do desastre foram recuperados 48 corpos, aos que se somaram 169
recuperados entretanto em redor do lugar do naufrágio, uma zona com
fortes correntes a 135 quilómetros da costa líbia. Desde que o
pesqueiro foi encontrado, e
levado para uma base da NATO em Augusta, na Sicília, há duas
semanas, foram recuperados mais 458 corpos.
Os
destroços da embarcação estavam a 370 metros de profundidade, o
que implicou que marinha contratasse uma empresa para ajudar a
construir uma estrutura metálica capaz de os erguer e retirar da
água, depois, o que sobrava do pesqueiro foi levado até a base
militar e colocado num hangar refrigerado para que bombeiros com
máscaras e fatos protectores tentassem extrair os corpos do seu
interior.
As
operações terminaram esta quinta-feira e já é possível ter uma
dimensão da tragédia, “No total, temos 675 body
bags”, os sacos que contém os corpos das vítimas, diz
o comandante Nicola De Felice, citado pela agência italiana de
notícias AGI.
“O
aspecto mais impressionante é que havia cinco pessoas por metro
quadrado no convés”, descreve Giuseppe Romano, responsáveis dos
bombeiros que tiveram a cargo esta tarefa.
De
acordo com os relatos feitos pelos sobreviventes aos membros do ACNUR
(a agência da ONU para os Refugiados), o pesqueiro virou-se quando
os que seguiam a bordo se dirigiram para um dos lados, tentando assim
colocar-se em posição para serem salvos pela tripulação do
porta-contentores. O que se seguiu foi uma “tragédia de enormes
proporções”, disse na altura a porta-voz do ACNUR para o Sul da
Europa, Carlotta Sami.
Com
estas tentativas de socorro por parte de bem-intencionadas mas mal
equipadas tripulações da marinha mercante, que faziam, na prática,
o que os governos da União Europeia recusavam, os naufrágios
durante as operações de resgate tornaram-se muito comuns.
Foi
com este desastre que a União Europeia começou a discutir a
necessidade de voltar a promover operações de patrulha e salvamento
no Mediterrâneo, depois de as
ter interrompido com o
argumento de que a sua existência incentivava a “migração
legal”.
No
Verão de 2015, no pico das chegadas, o movimento de pessoas
deslocou-se do Mediterrâneo Central para a fronteira oriental do mar
do Sul da Europa (através da rota Turquia-Grécia e Balcãs), uma
mudança que Bruxelas tentou resolver com o encerramento de
fronteiras e com a negociação de um polémico
acordo com o Governo turco de
Recep Erdogan, que tem como objectivo impedir os refugiados de
abandonarem a Turquia para pedir asilo nos países europeus.
Medidas
que a UE anunciou como soluções mas que, na verdade, não o são,
como mostra o aumento de mortes de refugiados que atravessam o
Mediterrâneo. Só este ano (até 10 de Julho), morreram pelo menos
3783 pessoas em fuga, diz a Organização Internacional das
Migrações, incluindo 2933 no Mediterrâneo. Desde 2014, mais de 10
mil pessoas morreram ou despareceram na travessia (em cada naufrágio
há sempre gente que nunca é encontrada), entre Janeiro e Julho, só
na Itália, já foi registada a chegada de 77.436 pessoas.



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