O
relatório da comissão de inquérito ao envolvimento britânico na
invasão do Iraque, trabalho ciclópico de 2,6 milhões de palavras,
promete moldar durante décadas a narrativa oficial, e, o veredicto é
muito severo para o governo de Tony Blair, alegando que o antigo
primeiro-ministro decidiu a invasão sem ter antes esgotado todas as
outras opções disponíveis e exagerou, de forma deliberada, a
ameaça que o regime de Saddam Hussein representava.
Se
o tempo é curto para fazer História, uma eternidade parece ter
passado desde que, na madrugada de 20 de Março de 2003, o Presidente
norte-americano, George W. Bush, anunciou na televisão que a guerra
para derrubar Saddam tinha começado, perante o que dizia ser a
recusa do líder iraquiano em entregar as armas de destruição
maciça.
No
Iraque, pelo menos 150 mil pessoas morreram desde então (outras
estimativas apontam para 600 mil), o ditador desapareceu, mas com ele
desapareceu a máquina do Estado, hoje o país continua em guerra,
ameaçado pelo terrorismo, as tensões sectárias e a paralisia das
instituições políticas.
Os
Estados Unidos retiraram em 2011, somando quase cinco mil soldados
mortos, mas apesar de as forças americanas terem regressado em 2014
para combater o autoproclamado Estado Islâmico, Washington arrumou a
guerra na prateleira do passado, o Presidente Barack Obama, eleito em
2008, votara contra a guerra e fez da retirada um ponto de honra.
Em
Londres, o Governo também mudou de mãos e as preocupações são
hoje outras, mas
como escrevia segunda-feira o Financial
Times a
participação no conflito assombra ainda a política britânica,
pelas
sequelas que deixou na política externa (hoje menos favorável ao
intervencionismo, como se viu em 2013 quando o Parlamento recusou
intervir na Síria) e sobretudo na credibilidade dos políticos.
Feridas
que Gordon Brown, sucessor de Blair em Downing Street, quis fechar
quando, em 2009, pediu a John Chilcot, um antigo alto quadro da
função pública, que investigasse as circunstâncias em que foi
decidida a participação britânica na guerra e a forma como a
operação e o pós-invasão foram planeados e executados.
Ninguém
pensou que demorasse tanto, as famílias dos 179 soldados mortos
chegaram a fazer um ultimato para que o relatório fosse publicado,
mas cinco anos depois das últimas audições (e foram mais de uma
centena) Chilcot não gorou as expectativas de quem queria ouvir um
veredicto claro sobre o que o Governo britânico de então fez e
deixou por fazer. “As conclusões são claras como água,
civilizadas, mas sem sombra de dúvida totalmente condenatórias,
ainda que talvez não haja grandes surpresas”, escreveu Laura
Kuessenberg, editora de Política da BBC. O jornal The
Guardian chamou-lhe
“veredicto demolidor”; o Telegraph uma
“crítica devastadora”.
Na
apresentação do relatório, Chilcot começou por dizer que Saddam
“era sem sombra de dúvidas um ditador brutal”, mas afirmou que
Londres avançou para a guerra sem que o regime iraquiano
constituísse uma “ameaça iminente”. “Concluímos que o Reino
Unido escolheu participar na invasão do Iraque sem antes terem sido
esgotadas as opções pacíficas para o desarmamento” do regime de
Saddam. “A acção militar, naquele momento, não era o último
recurso.”
Blair,
tal como Bush, insistiram sempre no contrário, que o ditador
iraquiano tinha falhado sucessivos prazos para se desfazer dos seus
arsenais químicos e biológicos e que, deixá-lo mais tempo em
Bagdade, era arriscar que as armas pudessem cair nas mãos de
terroristas. Arsenais que os inspectores das Nações Unidas
duvidavam já então que existissem e que, meses depois da invasão,
se provou que Saddam não tinha.
“É
agora claro que a política para o Iraque foi feita com base em
informações e avaliações erradas. Informações que não foram
questionadas, quando o deviam ter sido”, disse Chilcot. Uma falha
que é, em primeiro lugar, dos serviços secretos que trabalharam
sempre com base na presunção de que as armas existiam, sem nunca
terem questionado esse pressuposto.
Mas
o relatório acusa Blair de ter ido mais longe, exagerando
deliberadamente a ameaça que os supostos arsenais iraquianos
representavam, nomeadamente quando, em Setembro de 2002, disse no
Parlamento que os serviços secretos tinham concluído “sem margem
para dúvidas” que Saddam voltara a produzir armas químicas e
biológicas.
Certas
conclusões “foram apresentadas com um grau de certeza que não se
justificava”, afirmou o responsável pelo inquérito, sugerindo que
as convicções pessoais do líder trabalhista e da equipa que o
rodeava, bem como as informações recebidas de Washington – terão
sido essenciais na decisão de avançar para a guerra.
Uma
decisão que o primeiro-ministro britânico teria tomado vários
meses antes de obter a autorização do Parlamento, como sugere um
dos 31 memorandos que enviou a Bush e que agora foram divulgados,
“Estou contigo, aconteça o que acontecer”, escreveu Blair, em
Julho de 2002, numa nota em que tentava convencer o Presidente
americano a não desistir de obter o aval das Nações Unidas a uma
intervenção. Blair insistiu sempre que, para Londres, era vital
estar ao lado do seu principal aliado internacional, mas esse é um
argumento que o relatório não acolhe, alegando que a força da
“relação especial” tinha já sobrevivido a outras crises.
O
relatório também desmonta o argumento de que era impossível
prever, à luz do que então se sabia, as consequências desastrosas
que o derrube do regime de Saddam poderia ter, as tensões sectárias,
o risco de ingerência estrangeira ou a infiltração da Al-Qaeda
“foram explicitamente identificadas antes da invasão”, e acusa
as chefias políticas e militares de terem “subestimado” as
ameaças.
Chilcot
acrescenta ainda que o planeamento da fase posterior à invasão foi
“inadequado”
e acusa as chefias militares de terem enviado os soldados para a
frente sem a preparação e o equipamento necessários.
Blair
não podia deixar que a narrativa do dia se fizesse sem a sua versão,
sobretudo depois de familiares de soldados mortos terem anunciado que
vão estudar o relatório para apurar se há bases para processos
judiciais, e, de o líder trabalhista Jeremy Corbyn, que em 2003
encabeçou a oposição à guerra, ter pedido desculpa em nome do
partido pela “decisão desastrosa” do antecessor.
Numa
conferência de duas horas, descreveu a decisão de entrar na guerra
como “a mais agonizante” que já tomou e disse lamentar “mais
do que alguém pode saber ou imaginar” tudo o que correu mal, “as
informações que tínhamos revelaram-se erradas, o pós-guerra
tornou-se mais hostil e sangrento do que imagináramos, uma nação
de pessoas que se queriam ver livres da maldade de Saddam tornaram-se
vítimas do terrorismo sectário”.
Disse,
no entanto, que o relatório provou que ele não mentiu ao
Parlamento, não falsificou documentos e agiu “de boa-fé”.
“Continuo a acreditar que tomei a decisão a correcta”, afirmou
Tony Blair, acrescentando que, apesar de todos os erros, o Iraque
“está melhor sem Saddam”.






Sem comentários:
Enviar um comentário