Um
levantamento do site Transparências no Brasil, deste ano, avaliou
que a “bancada dos parentes” é a mais poderosa do Congresso, a
lei, muito flexível, permite que quase metade dos senadores e
deputados tenha familiares em cargos públicos, e, nos estados, clãs
chegam a governar por décadas.
No
Senado e na Câmara dos Deputados, os parlamentares, além de se
dividirem pelos mais de 20 partidos, ainda se organizam por bancadas
suprapartidárias como a da Bíblia, composta por fiéis das igrejas
evangélicas, a do Boi, que cuida da agenda dos grandes
latifundiários e criadores de gado, a da Bala, de polícias e
militares favoráveis ao uso de armas, ou a da Bola, que zela pelos
interesses dos clubes de futebol.
A
bancada dos Parentes, porém, conta com 238 dos 594 congressistas (ou
seja, 40%), isto é, quase metade dos parlamentares tem, pelo menos,
um familiar em cargos públicos, o lóbi do parentesco é, pois,
ainda mais forte do que os outros lóbis.
O
caso é mais visível a nível local, onde proliferam clãs
familiares de décadas, ou séculos, no Maranhão, o mesmo estado de
Jackson Lago, o clã Sarney, criado em torno do antigo presidente
José Sarney (PMDB), governou direta ou indiretamente por 50 anos, e
Zequinha Sarney (PV), filho de José, é o ministro do Meio Ambiente
do governo interino de Michel Temer (PMDB).
Em
Pernambuco, João Campos (PSB), de 22 anos, prepara-se para ser o
herdeiro político do pai, Eduardo Campos, falecido em desastre de
avião em 2014, quando concorria à presidência da República. O avô
de Eduardo e bisavô de João foi Miguel Arraes, que governou o
estado por cerca de 30 anos.
Nessa
mesma campanha eleitoral, a vencedora Dilma Rousseff (PT) acusou o
rival Aécio Neves (PSDB), neto de Tancredo Neves (PMDB), que morreu
antes da posse como presidente do Brasil em 1985, de empregar
familiares enquanto governador de Minas Gerais. A candidatura de
Aécio vasculhou e encontrou um irmão de Dilma com supostos
privilégios.
Aos
Sarney, Campos e Neves, juntam-se os clãs dos Magalhães, na Bahia,
que vão do velho cacique Antônio Carlos Magalhães (DEM) ao hoje
prefeito de Salvador, conhecido como ACM Neto (DEM), os Calheiros, no
Alagoas, do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB) e do seu
filho homónimo e atual governador do estado, ou os Virgílio, no
Amazonas, como o nome de guerra do hoje deputado Arthur Virgílio
Bisneto (PSDB) ilustra.
“Não
há irregularidade na contratação de primos”, respondeu
prontamente o gabinete do deputado Rodrigo Maia, recém-eleito
presidente da Câmara dos Deputados, o segundo cargo na linha de
sucessão no Brasil, após insistentes pedidos de esclarecimento da
imprensa à nomeação de um parente do parlamentar.
O
nepotismo, abuso que um eleito faz da sua posição para favorecer
familiares, está sob escrutínio mais intenso do que nunca da
opinião pública e da justiça brasileiras.
Consciente
da situação, a assessoria de Maia, que pertence ao partido mais à
direita do Parlamento, o DEM, e substituiu o controverso Eduardo
Cunha (PMDB), reagiu de imediato.
Porque
o Brasil é o país em que, no não tão longínquo ano de 2007, o
governador do estado do Maranhão Jackson Lago (PDT), entretanto
falecido, contava com dois irmãos, quatro sobrinhos, três primos e
um genro no seu gabinete. Da família da sua mulher, tinham cargos
governamentais num dos estados brasileiros mais pobres, dois irmãos,
seis sobrinhos e dois primos. Um destes primos, chefe da casa civil,
empregava dois filhos, no total, eram 23 parentes de Lago sob o
guarda-chuva do estado.
Não
por acaso, logo no ano seguinte, o Supremo Tribunal Federal decidiu
intervir, aprovando a “súmula vinculante número 13” que vedava
o nepotismo nos três poderes, executivo, legislativo e judicial, e
nas três esferas, federal, estadual e municipal. Mas o entendimento
jurídico posterior de que a determinação não incluía cargos de
“confiança política”, deixou tudo mais ou menos como dantes, “O
texto tem brechas e desse modo um governante pode preencher a sua
equipa só com parentes”, dizia na época ao jornal O Globo o
professor de Direito Administrativo Gustavo Magalhães.
"É
um velho costume usar a máquina pública para fins particulares, é
um atentado contra qualquer vida pública decente e sem nenhuma
justificação", opina Roberto Romano, professor de Filosofia
Política da Unicamp.
E
é um problema tão na ordem do dia que o caso de Carlos Bonel
Júnior, o primo e assessor de Rodrigo Maia, ofuscou a estranha
nomeação do amigo de longa data do presidente da Câmara, o MC
Geleia, um cantor do género funk ostentação (variante paulista do
funk carioca que exalta o consumismo), para um cargo no gabinete da
presidência da Câmara dos Deputados.




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