A
poucos dias de a presidência do Mercosul ser entregue à Venezuela,
é a crise política neste país, e não os reflexos do abrandamento
económico na região ou o impacto do “Brexit” na conclusão do
acordo de livre comércio com a União Europeia, que está a consumir
os membros desta aliança comercial que integra os países
sul-americanos.
Inconformados
com a perspectiva de ter o Presidente Nicolás Maduro a dirigir as
negociações em nome do Mercosul, os governos da Argentina, Paraguai
e Brasil têm-se movimentado para travar a transferência da
presidência rotativa, que estava nas mãos do Uruguai, para a
Venezuela.
Por
causa das regras que obrigam a decisões por consenso, esses esforços
deverão sair gorados, mas tentativas já atestam a divisão interna
do bloco, que corre o risco de ver a sua acção paralisada.
Agendada
para 12 de Julho, a habitual cimeira semestral regional, onde se
processa a transferência da autoridade de um sócio para o outro,
foi cancelada, e um conselho dos Negócios Estrangeiros foi marcado
para a véspera.
A
razão apontada foram as “condições políticas particulares que
vivem alguns dos sócios”, uma referência ao Brasil, que tem em
funções um Governo interino enquanto corre o processo de
destituição da Presidente Dilma Rousseff, e também à Venezuela, a
braços com uma profunda crise.´
O
ministro interino dos Negócios Estrangeiros do Brasil, José Serra,
viajou na quarta-feira para Montevideu (Uruguai) numa tentativa de
reunir apoios para protelar a passagem de testemunho para Caracas, a
sua proposta é manter tudo como está durante, pelo menos, mais um
mês, para que o grupo possa discutir especificamente a “questão”
venezuelana: embora em teoria a discussão tenha a ver com matérias
burocráticas e normativas e regras cambiais, o que interessa aos
membros é abordar a situação política interna.
Os
opositores a Maduro têm um argumento de peso para travar a mudança
da presidência, simbólica, do Mercosul, segundo dizem, não faz
sentido que seja a Venezuela, que nem sequer cumpriu todos os termos
de adesão ao bloco (por exemplo, as regras alfandegárias), a
liderar o complexo e delicado processo negocial com a União
Europeia, um processo aberto há vinte anos e que se encontra num
momento crucial.
Mas
essa lógica tem uma fragilidade, nenhum dos sócios do Mercosul se
mostrou especialmente incomodado com o facto de Caracas, que aderiu
ao grupo em 2012, não ter subscrito o acordo tarifário. E ninguém
(nem os cinco membros plenos e nem os Estados associados) nunca
levantou essa objecção quando a Venezuela assumiu a presidência do
bloco, em 2013.
Para
já só o Paraguai disse preto no branco aquilo que os seus aliados
tentam deixar subentendido nas entrelinhas, que o Governo de Nicolás
Maduro não tem a idoneidade necessária para liderar o bloco, não
só pela sua incapacidade de responder à vertiginosa crise económica
que consome o país, mas também pelo seu autoritarismo e desrespeito
das regras democráticas.
Independentemente
da intenção, a reacção de Caracas surgiu de imediato, com a
ministra dos Negócios Estrangeiros, Delcy Rodríguez, a apontar a
“insolência” do ministro brasileiro, que exerce o cargo na
sequência de um “golpe que vulnera a vontade de milhões de
cidadãos que votaram na Presidente Dilma”, acusou. “O ministro
José Serra soma-se à conspiração da direita internacional contra
a Venezuela, pondo em causa os princípios básicos que regem as
relações internacionais”, lamentou.



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