Os
efeitos do referendo, onde o sim, à saída do Reino Unido da União
Europeia, venceu, tiveram um efeito “em cascata” na economia
britânica.
O
"Brexit" não demorou muito tempo a afectar fortemente o
sector imobiliário, sector
fundamental da economia britânica, em pleno “boom”
nos últimos anos. Incapazes de responder aos pedidos dos
investidores desejosos de recuperar os seus investimentos, quatro
fundos da Standard Life, da Aviva Investors, da Henderson Global
Investors e da M&G Investments, que geram um total de nove mil
milhões de libras de activos no imobiliário comercial (escritórios,
lojas), decidiram encerrar
temporariamente.
Um
sinal inquietante e um fenómeno que não se via desde a crise de
2008, a
consequência disto foi a queda na bolsa de Londres, nos últimos
dias, dos valores imobiliários e os grupos financeiros expostos ao
imobiliário.
Mas
além da bolsa e destas operações financeiras complexas, é todo o
sector da construção que está afectado. No primeiro indicador
público para Junho, o mês do referendo de dia 23, o índice PMI
(índice industrial) da construção contraiu pela primeira vez desde
meados de 2013 e a um ritmo que não se registava desde 2009, depois
do crash imobiliário
provocado pela crise financeira.
Os
britânicos abandonaram as lojas
Em
pleno período de saldos, os britânicos estão a deixar os armazéns
desertos.
Segundo
os números publicados pelo Springboard, o número de pessoas que
procuram as “high streets”
(grandes artérias comerciais) caiu 11% no dia 29 de Junho, por
comparação com o mesmo dia do ano anterior. “As
pessoas deixaram de dar atenção às compras e estão agora
preocupadas com a incerteza quanto ao futuro”,
diz Diane Wehrle, da Springboard.
No
resto do sector dos serviços, que é preponderante na economia
britânica, os primeiros sinais são negativos.
O
índice PMI do sector, publicado na terça-feira, mostra um
abrandamento em Junho e várias empresas adiaram ou anularam algumas
ordens devido a incerteza gerada pelo “Brexit”. Mesmo que o
período estudado cubra sobretudo os dias depois da votação, o
abrandamento pode, segundo o gabinete Markit que publica o índice,
dar origem a um golpe no crescimento de 0,2 ponto percentuais no
segundo trimestre contra 0,4 ponto do primeiro.
Emprego
em quebra
Em
plena forma nos últimos anos, com as últimas estatísticas oficiais
a mostrarem 5% de desemprego em Abril, o valor mais baixo dos últimos
11 anos, o mercado do emprego começa a ressentir-se.
Nos
serviços, a taxa de contratações em Junho foram as mais baixas em
três anos, segundo a Markit, mais preocupante, segundo a CEB Talent
Neuron, o número de ofertas de emprego publicadas no país depois da
votação (período de 23 de Junho a 4 de Julho) quase foi reduzido
para metade, 817.376 contra 1,466 milhões na semana anterior.
Queda
da libra
No
seu nível mais baixo face ao
dólar em 31 anos, a libra
afundou quase 15% (em relação ao dólar) depois do “Brexit”.
Enquanto os primeiros sinais
prováveis de uma subida da inflação por via do aumento do preço
de produtos comprados no estrangeiro não se materializam, a queda da
libra já tem um impacto concreto na vida dos britânicos que estão
de partida de férias para Espanha ou França e que já viram os seus
orçamentos fortemente amputados. A consequência é semelhante para
os muitos compatriotas instalados no Sul da Europa.
As
empresas exportadoras, por seu lado, tiram vantagens desta baixa do
valor da moeda britânica, uma vez que os seus produtos se tornam
mais competitivos no lado de cá do Canal da Mancha, mas a incerteza
sobre a forma como será feito o acesso ao mercado único, inquieta,
nomeadamente o sector automóvel, que produz no Reino Unido mais de
1,5 milhão de veículos por ano, a sua maioria para exportar para o
resto da Europa. Este sector já começou a pagar a conta desta
incerteza, registando, em Junho, uma baixa de registo de matrículas
de 0,8 ponto percentuais, a primeira baixa desde Outubro do ano
passado.
Degradação
do rating do
Reino Unido
O
"Brexit" provocou a degradação do rating do
Reino Unido, na
Standard and Poor’s passou de AAA para AA; na Fitch de AA+ para AA;
a Moody’s, a terceira grande agência de notação, para já
ameaçou baixar.
Apesar
deste duro golpe, as taxas de empréstimo do país baixaram, com os
investidores a evitarem a volatilidade da bolsa e do mercado de
câmbios, voltando-se para o refúgio que o mercado de obrigações
representa. Na terça-feira, na primeira emissão de dívida de
Estado efectuada depois do “Brexit”, a taxa a cinco anos
britânicas estavam historicamente baixas.





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